Amazônia vive novo ciclo econômico sustentável – Parte II
29/01/2008
A extração de borracha é um dos usos múltiplos sustentáveis da floresta
Independência quase completa dos produtos de fora
Texto e fotos: Romerito Aquino
Colaborou: Tião Maia
O quarto ciclo econômico da Amazônia em que vivem os moradores do Cachoeira se completa com a quase total independência que os seringueiros têm em relação aos produtos que consomem hoje para viver. Duda Mendes, por exemplo, diz que só tem precisado comprar fora do seringal, nas cidades vizinhas, o açúcar, o sal, o sabão e a pólvora.
“Aqui eu produzo o arroz, o feijão, a mandioca e o milho, e crio diversos animais domésticos. Vez por outra, mato um para comer ou compro a carne do boi que alguém da comunidade matou e vende a todos. Amanhã mesmo vão matar um boi ali e já mandaram recado para eu ir lá comprar cinco ou dez quilos de carne”, diz Duda, proprietário ainda de mais de três dezenas de cabeças de gado. Ele diz que “corre léguas” de quem lhe sugere voltar a morar na cidade.

Duda com quatro filhas e um sobrinho
“A gente come bem, vive bem e não tenho inveja de quem vive na cidade. Eu morei sete anos na cidade (Xapuri) e não quero voltar de maneira nenhuma. Vou lá só para passear”, completa Duda, olhando da varanda de sua casa de quatro quartos para o terreiro cheio de galinhas, patos, porcos e outros animais domésticos. A alimentação da família de vez em quando é completada por uma saborosa carne de caça.
Ora viajando de moto para as cidades ou de cavalo para visitar um parente ou os velhos companheiros que moram mais ao fundo do seringal, Duda é a expressão da simplicidade e do otimismo quando chega para a entrevista, que concedeu na varanda de sua casa.

Ramal que dá acesso ao seringal Cachoeira
Das atividades do manejo florestal, que hoje lhe permite viver bem com a família, o primo de Chico Mendes só tem a reclamar da demora e da burocracia que ocorreu no ano passado na liberação pelo Ibama da venda da madeira manejada que cada seringueiro do projeto pode explorar em dez hectares por ano. Ou tendo direito a produzir 100 metros cúbicos no mesmo período.
Segundo Mendes, na hora de fazer a liberação da madeira, os servidores do Ibama estavam em greve e quando o movimento acabou fizeram uma série de exigências de documentos e não deu para a comunidade atender a tempo. “Quando vieram liberar a madeira, já era inverno”, diz Duda, ao lamentar que a burocracia acaba atrapalhando até quem quer o bem da floresta. O resultado foi que os seringueiros estavam correndo o risco em dezembro de ver a madeira estragar. “Estamos sendo prejudicados porque não podemos trabalhar.”

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Apesar de o Ibama “emperrar o negócio”, conforme diz Duda, a associação não tem problemas maiores para comercializar a madeira, que quando é dura é vendida para a fábrica de tacos instalada pelo governo bem próximo ao projeto, e quando é branca é comercializada para a madeireira Triunfo, de Rio Branco. “Nossa cooperativa vende bem a madeira porque tem vários clientes, inclusive de São Paulo”, informa.
Duda Mendes diz que chegou ao Cachoeira em 1969, aos nove anos, vindo do seringal Santa Fé, onde nasceu. “Meu pai era um cearense que gostava muito de trabalhar em busca de vantagens e melhorias para a família. Por isso, morou em mais de vinte ‘colocações’. Mas quando chegamos aqui, ele disse: ‘Daqui não saio’, pois o patrão da época, dos ruins era considerado o melhor”, destaca Duda.

Estrada que leva à sede do Cachoeira
Segundo Mendes, na época de seu pai e de seu avô, a maioria dos seringueiros acreanos era tratada como “porco” pelos patrões seringalistas. “Era assim como eles [seringalistas] consideravam todos nós seringueiros. Era como se a gente vivesse dentro de um chiqueiro, sem identidade, sem direitos”, completa ele, no único momento de tristeza no olhar, ao lembrar os sacrifícios que seus antecedentes tiveram que passar para sobreviver e defender a floresta.
Conquistas do novo ciclo se devem a muita luta e muito sangue
Mesmo estando com dez anos de idade, Duda Mendes lembra bem o início, em 1970, do grande movimento de resistência dos líderes seringueiros contra a derrubada da floresta pelos fazendeiros que compraram os antigos seringais acreanos. Entre eles, Duda destaca Wilson Pinheiro, Chico Mendes e outros. “Era o Chico Mendes junto com o João Maia, da Contag. Lembro muito bem as reuniões aqui no Cachoeira para iniciar a luta. Em seguida, foi criado ‘O Varadouro’ (jornal alternativo da época, editado por jornalistas que apoiavam os seringueiros na sua luta contra a derrubada da floresta)”, lembra Mendes.

Seringueiros têm pequenas criações de gado
Segundo o seringueiro, “era um jornalzinho que os patrões tinham o maior ódio de ver naquela época”. “Esse jornal e a Igreja (católica) ajudaram muito o nosso movimento”, lembra Duda, que já rapaz se engajou na luta liderada por Chico Mendes e João Maia para fazer os “empates” das derrubadas de floresta, que os fazendeiros queriam fazer na marra para plantar capim e criar gado. Naquela época, os conflitos foram intensos e o Acre chegou a pegar fogo, cheirando mesmo a pólvora, com mortes de ambos os lados e muito mais baixas do lado dos seringueiros e trabalhadores rurais.
No fim do conflito, duas décadas depois, os dois lados se aquietaram, com os seringueiros sendo beneficiados com a Reserva Extrativista Chico Mendes, de quase um milhão de hectares, e os fazendeiros derrubando a floresta para criar gado nas terras às margens da BR-317, que em quase toda sua extensão, de Rio Branco a Brasiléia, jamais lembram um local situado na Amazônia, mas um lugar semelhante às grandes pradarias norte-americanas.

Duda também tem criação de animais domésticos
Apesar de saber que a emancipação econômica e social do Cachoeira ainda é um oásis em meio à pobreza que cerca os povos da floresta em outras regiões do Acre, principalmente no Vale do Juruá, região de densa floresta, onde a pecuária e a febre de biocombustíveis que toma conta do país sempre podem representar uma séria ameaça, Duda Mendes mostra-se otimista com relação ao papel benéfico que a floresta amazônica pode representar para o Brasil e o mundo.
Nesse sentido, o seringueiro revela ter um plano simples que pode, segundo ele, ajudar a salvar a Amazônia. O plano seria o governo juntar o dinheiro que gasta atualmente com o programa Bolsa Família e com o salário maternidade para pagar meio salário mínimo (cerca de R$ 160) para cada família que vive no interior da Amazônia cuidar da floresta, evitando o seu desmate e a sua queimada. E o que o mundo ganharia com isso? Duda responde: “O mundo iria ganhar muito porque melhoraria a questão climática de toda a Terra”.

Sede do Cachoeira tem computador e parabólica
Nesse ponto, ele faz uma revelação que é um grande achado prático para a análise das conseqüências que o aquecimento do planeta vem provocando na Amazônia. “Antigamente, a gente ficava no roçado até meio-dia, mas hoje a gente não agüenta ficar nem até as 11 horas por causa do calor e do sol quente”, diz Duda Mendes, ao concluir sua conversa dando outra dica importante que pode dimensionar os prejuízos do aquecimento global, causado no Brasil principalmente pelos desmatamentos na região amazônica. “Tem igarapé em nossa região que está secando em setembro e nunca tinha secado antes nesse mês do ano.”
Essa parte II da reportagem integra um Caderno Especial, de oito páginas coloridas, publicado no domingo, 20/01/2008, pelo jornal Página 20, de Rio Branco - Acre. A parte I da reportagem pode ser lida em matéria constante do link de Notícias desta agência, com o título: “Novo ciclo econômico e sustentável – Parte I”.
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