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Índios já dão exemplo de empreendedorismo

Índios já dão exemplo de empreendedorismo23/09/2007

Plantas que dão as tintas para produzir os cusmas dos Ashaninka

Foto: Sérgio Vale

 

Sandra Assunção (*)

A loja Apiwtxa dos índios Ashaninka do Rio Amônia fica em um Shoping Center no centro de Cruzeiro do Sul, no Acre. Bolsas, cusmas (a vestimenta tradicional dos Ashaninka, feita de algodão pelas mulheres da aldeia) tambores, pulseiras, colares, cachimbos e CDs e DVDs gravados por eles, são alguns dos artigos vendidos na loja, inaugurada em abril deste ano. Uma cusma masculina, por exemplo, é vendida por R$ 400,00 e as femininas saem por R$ 150 e R$ 200.

Os Ashaninka já fazem e vendem artesanato na aldeia desde 1992, quando a associação dos moradores foi fundada no local. Várias peças são vendidas em duas lojas de São Paulo e há muita encomenda da França e da Alemanha. Em cruzeiro do sul o artesanato era vendido em uma residência, mas com o aumento das encomendas e por causa da escola Yorenkã Atame, recentemente inaugurada pelos Ashaninka em frente á sede do município de Marechal Taumaturgo, houve necessidade da abertura da loja.

As vendas, segundo a administradora Alexandrina Pinhanta, estão boas. “Além de pessoas de foram, muita gente de Cruzeiro do Sul procura nosso artesanato. Fazemos também vendas em abertura de eventos e continuamos nossas vendas em outros estados e países. Um empresário de Fortaleza esteve aqui recentemente e levou muitas peças para vender e também para compor um museu do nordeste”, relata.

Alexandrina lembra que o artesanato, desde a década de 90, é responsável pela manutenção do “dia a dia” da Aldeia Apiwtxa no Rio Amônia, próxima a Marechal Taumaturgo, onde vivem cerca de 500 índios. “Lá se planta, há a caça e a pesca, mas há necessidade de outros insumos para manter tanta gente e o artesanato sempre garantiu renda para nossa Associação”, conta Alexandrina.

       

                   Artesanato indígena

Francisco Pinhanta, um dos líderes dos Ashaninka e atual assessor indígena do governo do Estado, diz que o acesso á equipamentos como computadores, motores de energia, GPS e outros, por meio do artesanato, garantiram também uma boa comunicação com o mundo externo. A tecnologia possibilitou a denúncia de crimes ambientais e a divulgação de várias ações desenvolvidas na aldeia, o que atraiu muita gente. A Aldeia Apiwtxa tem escola e posto de saúde, além de um telefone público-comunitário.

Empreendedorismo na floresta

O empreendedorismo dos Ashaninka começou pelo aspecto ambiental. Com as terras constantemente invadidas por madeireiros peruanos, eles apostaram na organização e na defesa sistemática de seu território e do meio ambiente. Desenvolveram métodos de manejo que garantem peixes, animais e recursos madeireiros e não madeireiros de forma sustentável. Conseguiram denunciar as invasões em viagens e por meio do telefone e também da internet, instalados na aldeia. Os equipamentos foram conseguidos, em grande parte, com recursos do artesanato.

Para abrigar pesquisadores, ambientalistas e outros visitantes da aldeia, por causa dos problemas ambientais, os Ashaninka construíram em 2005, em parceria com Governo do Estado, uma pousada com cozinha e banheiros com água encanada. A pousada já recebeu visitantes ilustres e autoridades políticas, militares e ambientalistas.

Em julho deste ano, um novo empreendimento: a Escola Saberes da Floresta _ YORENKÃ ATAME – Saberes da Floresta - localizada em frente á sede do município de Marechal Taumaturgo. O objetivo da escola é ensinar índios e brancos, práticas como o manejo florestal, de animais, coleta de sementes, artesanato e outros. Um curso de Agente Agro florestal foi ministrado para cerca de 100 seringueiros e ribeirinhos da localidade por Benki Ashaninka, que desenvolve manejo agro florestal na aldeia desde a década de 90. Na aldeia também há criação e manejo de peixes e quelônios para repovoar os rios. A apicultura é outra atividade que garante mel para o consumo da aldeia.

Visitas ilustres

A Escola Yorenkã atame foi idealizada pelos índios com vários parceiros como o casal de antropólogos Mauro e Daniela Almeida, da Universidade de Brasília, o vice-presidente do IBOPE e da WWF, Luis Paulo Montenegro, Txai Antônio Macedo, educadora Vera Olinda e muitos outros. Os recursos vieram de várias fontes e hoje a escola tem estrutura completa de salas, bibliotecas e equipamentos modernos para a realização de cursos. No inicio de agosto a ex-primeira dama da França, Daniele Mitterrand, ficou dois dias na escola. Ela, que preside uma ONG ambientalista, foi conhecer a realidade do local, para tentar mudanças nos critérios que medem índices de qualidade de vida de todo o planeta.

Ela ficou encantada com as ações da escola e com o artesanato Ashaninka. "Aqui no meio da floresta, onde não há elevadores ou creches, há sim qualidade de vida dentro dos costumes tradicionais dos índios, seringueiros e ribeirinhos”, declarou a ex-primeira dama da França Daniele Mitterrand, que dormiu uma noite na escola indígena o meio da floresta amazônica.

 

(*) Matéria publicada originalmente no jornal Página 20, como “Página do Empreendedor”, com o apoio do Sebrae-AC.




    


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