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Pajés relatam o nascimento dos índios

Pajés relatam o nascimento dos índios21/09/2006

 

Povo Yawanawá no IV Festival de Cultura Yawá

Fotos: Joaquim Tashkã e Sérgio Vale

 

Kaxiana

            A floresta amazônica é um imenso tesouro ainda muito pouco conhecido. Quem mais a conhece são os índios, mais precisamente os pajés, que sabem como ninguém para que servem partes de sua flora e de sua fauna. Mesmo assim, estima-se que o máximo que os índios conhecem são 10% de tudo que existe na maior floresta tropical do planeta.

         Dentro desse conhecimento, ainda limitado da floresta, os pajés indígenas são os que tudo ensinam na floresta. Ensinam desde a arte da cura, mostram a importância da proteção espiritual para a aldeia e contam as histórias, passadas de geração em geração, que explicam as razões dos acontecimentos atuais.

         E é uma dessas histórias antigas, de tempos imemoriais, que nos fala o cacique Biraci Brasil Nixiwaka, que lidera o povo indígena Yawanawá, habitante da Terra Indígena do Rio Gregório, no distante município de Tarauacá, no interior do Acre. Em texto que enviou ao antropólogo Txai Terri Aquino, que o publicou na coluna “Papo de Índio”, do jornal Página 20 (Rio Branco-AC), o cacique Biraci conta a história passada por muitas gerações de pajés que explicam a origem de seu povo e da maioria dos povos indígenas da língua Pano, hoje habitantes do Acre e do Sul do Amazonas.

         Trata-se de uma bela história cercada de mitos e lendas da floresta, que o cacique e hoje líder espiritual dos Yawanawá considera importante para saber qual é o “dom” e a “vocação” que seu povo recebeu desde o início da criação. A Kaxiana publica, a seguir, a íntegra do texto de Biraci Brasil Nixiwaka, mais uma das grandes riquezas que vem lá do interior da maior floresta do mundo.

                         

Biraci Nixiwaka colhendo folhas de kene kawa, chacrona especial para temperar o cipó uni do vinho sagrado da ayahuasca, no baixo Buriti, situado nas cabeceiras do paranã Paturi, na TI Rio Gregório

 

Mito de Origem dos Povos Pano

Biraci Brasil Nixiwaka (*)

         A história que vou contar agora para vocês, eu aprendi dos velhos pajés Tatá e Yawarani e do meu tio Raimundo Luis, lideranças espirituais do povo Yawanawá. É uma história que eles também ouviram de seus pais e o que seus pais também ouviram dos pais deles. É uma corrente de informação que vem desde a nossa criação. Não é todos os Yawanawá que sabem contar essa história, porque essas informações a gente só aprende quando participa de uma formação espiritual. Então, para gente se formar numa liderança espiritual, num conhecedor da espiritualidade do nosso povo, tem que buscar primeiro a nossa origem. Começar a história de onde surgiu o nosso povo. E saber qual é o dom e a vocação que nosso povo recebeu desde o início da criação.

         O nosso Criador nós chamamos de Nuke Sheni, que significa aquele que não tem nome, porque ninguém nasceu antes dele. Sheni é o mais velho, o que nasceu primeiro. A gente também chama o Criador de Nuke Shuvima, que significa o mais antigo, aquele que nos fez nascer na Terra.

         Contam os mais velhos que, de primeiro, existia uma gente muito antiga que vivia no céu. O nome dessa gente era Nãi Sãmuwita Ika, Nãi Tumiruwa, Nãi Katxapuhu. São três e todos são gente do céu. Nãi na nossa língua é céu. Pois bem, um dia os jovens de uma aldeia foram caçar e encontraram uma fruta caindo na mata, que nós chamamos de shekesh, o bacuri. O pé tava bem amarelinho, carregado. Aí um deles disse: “Vamos comer essa fruta”. Aí eles subiram na árvore pra comer bacuri lá em cima. No toco do pé de bacuri passava uma vareda de anta. Aí a anta ia passando, olhou pra cima e viu os jovens comendo bacuri. Ela então perguntou: “O que vocês tão fazendo aí cima?” Um dos caçadores respondeu: - “Nós estamos aqui comendo awa shuma shekesh”, que significa “a fruta do peito da anta”. Traduzindo ao pé da letra significa que “nós estamos comendo o bacuri do seio da anta”. A anta ficou uma fera, porque eles disseram que estavam comendo uma fruta que tinha o nome do peito dela. Então, a anta, com muita raiva, deu um coice no pé de bacuri que jogou todos eles nos galhos mais altos de uma grande samaúma. Eles não tinham como descer. Então, perguntaram: “E agora como é que nós vamos descer daqui?”. Eles pensaram e tiveram a idéia de se agarrarem uns nos outros até irem descendo devagarzinho, se ralando todo nos galhos e no tronco da samaúma. Até que desceram tudinho. Eles ficaram com tanta raiva que decidiram matar essa anta. Aí, no dia seguinte, chamaram todo mundo para caçar a anta, que tinha feito isso com eles. Aí um velho falou: - “Eu não vou, não!” Os jovens caçadores ficaram perplexos e não disseram nada ao velho teimoso. Foram rastejar a anta e a mataram. Esquartejaram a anta e voltaram pra aldeia, cada um levando um pedaço dela.

                       

                     Yawanawá dançam no Festival Yawá

         Chegaram na aldeia, mas não subiram nas casas nem comeram, fazendo jejum como tivessem matado um ser humano. E como o velho não tinha ido matar a anta com eles, resolveram tomar a sua jovem esposa. O velho chateado disse: - “Então, vocês tão pensando em fazer essa desfeita comigo? Tá bom! Então, vocês me aguardem!”.

         No outro dia, bem cedinho, o velho saiu sozinho para a mata. Saiu pelo caminho gritando, para ver se alguém respondia. Ele soprou, gritou até que bem mais no interior da mata alguém respondeu. Ele se escondeu, olhou e viu uma pessoa. Aí ele flechou e a pessoa caiu e morreu. Ele esquartejou logo esse guerreiro e dentro dele tinha uma maçã. Ele pegou essa maçã, fez um cauá e guardou dentro da capanguinha dele. Rolou o pescoço e trouxe a cabeça. Quando chegou na aldeia, disse: - “Olha, vocês mataram uma anta, fazendo dieta como tivessem matado gente. Gente é assim”, jogando a cabeça no meio do terreiro. Todo mundo ficou admirado e com medo. Aí chamaram um outro velhinho da aldeia e disseram assim para ele: - “Você, que é mais velho de todos, vem olhar pra saber de quem é essa cabeça”. Como o velhinho tinha sido criado pelo povo daquele guerreiro, reconheceu aquele rapaz que tinha o rosto queimado pelo fogo, quando ainda era criança. Ele reconheceu o rapaz e disse: - “Por que você fez isso com esse rapaz, ele e seus dois irmãos são os maiores guerreiros que existem no céu. Ninguém vai se livrar dele nessa terra, não. Vocês podem ter certeza que essa morte dele será vingada. E eu já vou-me embora”. Aí o velhinho desatou a redinha dele, chamou a velhinha dele e foram se embora, abandonando a maloca.

         O velho que matou aquele homem também fugiu e se escondeu na mata, não ficou mais ali. Ele foi para outro canto e ficou lá escondido, mas levou a maçã com ele. Nãi Sãmuwita Ika era justamente o nome daquele guerreiro do céu que o velho ranzinza matou. Aí só ficaram vivos Nãi Katxa Puhin e Nãi Tumeruwa, seus dois irmãos. O mais velho dos irmãos guerreiros foi justamente aquele que o velho matou. Daí começou a história da primeira guerra entre os povos indígenas.

         Esse velho ficou então escondido no meio da mata. Aí ele fez um tapiri e guardou a maçã dentro de uma maletinha de palha chamada de hunã na nossa língua. Altas horas da noite ele escutou aquela maletinha balançar e girar, fazendo um som assim txikere, txikere, txikere! Um som de uma coisa que tá girando. Aí ele foi e abriu a maletinha e olhou dentro e viu que tinha um cocar, começando assim a criação dos povos Nawa. “Nawa Vakehu Uni Unika”, quer dizer, “a criação dos povos Nawa, dos filhos Nawa”. Dentro dessa maletinha ele tirou um cocar de penas de arara. Esse cocar simbolizava a criação, o surgimento do povo Arara. “Shawãnawa Vakehu, Shawã rani maiti”. Aí ele fechou e pendurou a maletinha no mesmo lugar.

                     

                   Crianças Yawanawá no Festival Yawá

         Logo depois, viu a maletinha girar de novo, fazendo o mesmo barulho. Foi lá de novo e abriu a maletinha. Lá dentro tinha outro cocar de penas de japó, bem amarelinhas. Japó na nossa língua é isku. Aquele cocar simbolizava o surgimento do povo Iskunawa, Isku maiti, que significa cocar de penas amarelas do rabo do japó. Ele viu que esse cocar simbolizava o nascimento do povo do japó, Iskunawahu, Iskunawa Vakehu, que traduzindo seria os “filhos do povo do japó”. Ele deixou esse cocar no chão junto com o outro de pena de arara, trepando a maletinha de novo. Com pouco tempo a maletinha começou novamente a girar. Foi lá, abriu, olhou e tirou um cocar de couro de onça. Era o nascimento do povo Kamanawa Vakehu. Kamanawa é justamente um clã do povo Katukina, nossos vizinhos. E assim ele já estava se acostumando com o surgimento desses cocares. Tirava o cocar da maletinha e ela novamente começava a girar e fazer barulho. Ele ouviu de novo e foi lá. Abriu e viu um Yawarani maiti, um cocar do couro de queixada, daquele cabelo bem grosso que tem no pescoço da queixada, simbolizando o surgimento do povo Yawanawá, como somos conhecidos hoje. E assim foi gerando todos os povos Pano que conhecemos. Surgiram depois os Peirynawa, como eram chamados antigamente os Poyanawa. Depois apareceram os Shanenawahu. Os Shanenawa, desde a história da nossa criação, era como a gente chamava o povo hoje conhecido como Kaxinawá. Desde a nossa história da criação os Kaxinawá são os Shanenawahu, que significa “o povo do pássaro shane, que é todo azul”. Assim como os Kaxinawá, têm muitos outros povos Pano que não são nomes originais, não são nomes da criação. Os povos que até hoje mantêm os nomes da criação são: Shawanawa (povo Arara), os Iskunawa (povo do japó). Esse povo de Morada Nova, ali perto da cidade de Feijó, que hoje se chama Shanenawa, nós conhecemos muito bem. Esse pessoal é oriundo do nosso rio Gregório, morava ali no igarapé Paturi. Desde a criação, conhecemos eles como Iskunawa e não Shanenawa, como atualmente se chamam. Shanenawa do tempo da criação são os Kaxinawá de hoje em dia. Outros povos pano do tempo da criação foram extintos como os Ushunawa. Este não existe mais. E assim foram surgindo os Shawãnawa (povo da Arara), Rununawa (povo da Cobra), Ushunawa (povo da Pele Branca), Kamanawa (povo da Onça), Waninawa (povo da Pupunha), Isanawa (povo do Guandu), Sainawa (povo do Grito), Varinawa (povo do Sol), Yawanawa (povo da Queixada), Shanenawa (povo do Pássaro Azul), Peiyrinawa (povo do Sapo Cururu), Kapanawa (povo do Quatipuru), Marinawa (povo da Cutia) e Rununawa (povo da Cobra).

         Voltando à história da criação. Depois que saiu todos esses cocares, aí a malinha começou a girar de novo: txikere, txikere, txikere! Cada vez com mais velocidade. Aí quebrou a corda e essa maletinha caiu no chão, quando ela caiu no chão, abriu-se um buraco na terra. Era como se fosse nascendo da terra todos os povos Pano. Saiam de dentro da terra e iam pegando cada qual o seu cocar (maiti), o seu chapéu. Aí já eram pessoas mesmas. Então, surgiram todos esses povos Nawa, ou Pano, como se diz. Um deles começou a falar: - “E agora, cadê quem nos criou? Nuke Shuvima, Nuke Shuvi. Cadê o nosso criador? Vamos procurar”. O velho quando viu tanta gente assim, logo se escondeu atrás da maloca, que nós chamamos Shuhuwã. Ele ficou com medo, porque viu muita gente surgindo de dentro da terra e colocando os seus chapéus. Aí eles saíram procurando, até que acharam o velho e disseram assim pra ele: - “Você que nos fez surgir nessa terra, agora nos ensina como viver nela. Ensina como nós devemos caçar, pescar, curar as doenças, como zelar da nossa gente”.

                  

            Índios Kaxinawá do rio Jordão, em Tarauacá (AC)

         Cada povo Pano que surgiu ali trouxe um dom da criação. O Criador deu uma vocação especial a cada um deles. Nós, por exemplo, os Yawanawá somos Yuveya Vakehu Shuvia, ou seja, aquele povo que trata as doenças cantando, só com a voz, sem uso de instrumentos musicais. Então, os Yawanawá são um povo que tem o dom da cantoria e das rezas cantadas. E também tem a vocação de tratar com massagens, shuyui. Com isso, já nascemos com o dom de curar com os cantos, as rezas que vêm desde o tempo da criação. Agora, Vana Upia, esse é dos Kamanawa, um clã do povo Katukina. Kamanawahu é um povo que nasceu com vanaya, com espírito de pajé tradicional mesmo, da sucuri, a cobra d´água que gosta de viver nos baixos, nos buritizais inundados, nos igapós e até mesmo no rio e igarapés maiores. Entre esses Panos têm os que são mais próximos e outros mais distantes. Então, os Kamanawa foram os que nasceram realmente com o guia espiritual da pajelança, que nós chamamos vanaya, vanaya upia.

         Já os Kaxinawá, os antigos Shanenawa do tempo da criação, são conhecidos desde então como Nipuya Vakeahu, Nipuya, porque eles são conhecedores de folhas medicinais da floresta, que são muito poderosas. Tem outro povo chamado Sainawa que também nasceu com o dom do grito, da animação em suas festas tradicionais. Sai é grito e nawa é povo, gente, ser humano.

         E assim surgiram todos esses povos Pano. Que a gente fala assim: Shuvia kayahu, aqueles que vem da origem. Esses daí são povos mesmo.Tem alguns outros que já são subgrupos desses aí. Já foram apelidos que receberam depois da criação. Por isso que hoje tem nome como Kaxinawá e Marubo. Esses nomes não vêm do tempo da criação. São nomes dados por outros grupos Pano. Esse nome Kaxinawá é até pejorativo, quer dizer que eles comiam gente, seus próprios parentes mortos, por isso deram o nome de Kaxi que significa morcego, ou vampiro. Mas o seu nome verdadeiro do tempo da criação é Shanenawa, povo do pássaro azul.

         Essa história a gente só aprende durante a nossa formação espiritual. Não é coisa que se transmite numa reunião e no dia-a-dia, ou numa sala de aula, não. Os velhos pajés só nos contam essas histórias numa noite de cipó (quando se bebe a ayahuasca, bebida extraída de cipós da selva) ou quando estamos nos preparando para sermos os pajés de nossas comunidades.

(*) Liderança política e espiritual do povo Yawanawá da TI Rio Gregório, no município de Tarauacá/AC.




    


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