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Yawanawá aposta no etnoturismo

Yawanawá aposta no etnoturismo21/10/2009

Festival ocorre no terreiro da aldeia Nova Esperança

Foto: Divulgação

 

 

 

 

 

 

Tatiana Campos (*)

 

A viagem até a Aldeia Nova Esperança começa no Aeroporto Internacional de Rio Branco, onde você pega o avião para as cidades de Tarauacá ou Cruzeiro do Sul. De lá até a ponte sobre o rio Gregório, de onde partem os barcos, são cerca de duas horas de carro pela BR-364, emoldurada de verde por todos os lados. A ponte, uma imensa estrutura de concreto no meio da floresta, é um marco na viagem. Lá você para o carro e desce até a beira do rio. Ali começa outra etapa do trajeto. Com sorte você encontra tucanos, araras, macacos, tartarugas. Sorria. Você está em meio à Amazônia, numa área de terra protegida por lei e preservada. Bem vindo à selva.

O trajeto de barco pode durar até 8h, pois na época do festival, em outubro, o rio está seco e com muitos galhos de árvores no leito. Os barqueiros são experientes e cuidadosos, o que deixa o passageiro livre para se preocupar apenas com a paisagem. Preste atenção nas araras amarelas que podem sobrevoar o barco, cruzando o rio de um lado para o outro.

Ao voltar da aldeia, após ouvir o canto Kanarô, você vai lembrar delas como os pássaros da saudade. É bom ir protegido com uma camisa de malha de manga longa, porque o sol pode provocar queimaduras. Não esqueça o chapéu e o protetor solar. Para os mais observadores, um binóculo pode ser boa companhia para ver as aves que passam voando alto.

O rio Gregório dá muitas voltas até chegar à Aldeia Nova Esperança, a maior aldeia da TI, que abriga também outras comunidades como a Amparo e a Sete Estrelas. Uma curva do rio é inesquecível e você vai saber quando chegar até ela. Um barranco bem alto indica que você está chegando. Sua primeira visão será a dos Yawanawá dançando numa coreografia sincronizada e entoando um canto de boas-vindas. É um momento que marca o seu primeiro contato com o povo Yawa.

No Brasil, ainda não existe uma referência em turismo indígena, segundo o secretário de Turismo do Acre, Cassiano Marques. Para chegar à aldeia, a única forma é através do pacote turístico. O passeio deve integrar uma rota que vem sendo estruturada pela Secretaria de Turismo e Esporte e Lazer do Estado do Acre (Setul), que deverá ser batizada de Caminho das Aldeias e da Biodiversidade.

"Não se pode chegar à aldeia de qualquer jeito. Para melhorar esse produto, temos buscado diálogo com os órgãos federais para o fomento do turismo indígena, algo que envolve financiamentos, investimentos e a promoção do negócio. Dentro desta estrutura, serão buscados parceiros da iniciativa privada que possam investir nas comunidades, dentro de marcos legais. Também é necessário estabelecer limites de visitantes, retorno financeiro para os índios, regras de visitação", ponderou o secretário.

A Terra Indígena do Rio Gregório foi identificada em 1977 e demarcada em 1984. Antes da ampliação, media mais de 92 mil hectares e hoje a área conta com um perímetro de 239 quilômetros. "Do tamanho que os nossos ancestrais perambulavam por ela", comemora o cacique Biraci Yawanawá. A homologação do novo território foi entregue pelo presidente da Funai, Márcio Meira, que participou do festival no ano passado. A terra foi a primeira a ser demarcada no Acre e a primeira a ser revisada no estado, tornando-se um dos maiores territórios indígenas acreano e o primeiro no Brasil a ser ampliando num espaço de tempo tão curto e sem nenhum conflito, graças à comunhão entre o povo indígena e os poderes do Estado do Acre.

 

Uma festa para voltar ao passado

 

Na aldeia, o dia amanhece bem cedo. Todos os índios começam o ritual de preparação para o festival: vestem suas saias de palhas de buriti, pintam o corpo com seus Kenê - desenhos corporais que são recebidos durante as rodas de Uni (ayahuasca), ou que estão na memória dos mais velhos - colocam na cabeça os cocares e preparam o espírito para brincar.

O Festival Yawa celebra a cultura do povo indígena. Durante a festividade, o ritmo da aldeia muda. São suspensas as atividades normais e todos, homens, mulheres, jovens e crianças se dedicam apenas a reviver os costumes e brincadeiras que marcam sua cultura. Talvez um festival para reviver os costumes não fosse necessário se os índios não houvessem passado por um massacre cultural imposto pelo branco na década de 1970. As brincadeiras, os cantos, os rituais espirituais, a língua e outros costumes aos poucos foram ficando apenas na memória dos mais velhos. Hoje, os Yawanawá são um povo que consegue transitar entre a cultura do branco e as próprias tradições sem perder o foco.

O líder Nani Yawanawá, que ajuda a comandar as brincadeiras, explica a essência do festival: "A festa é um momento para trazer o povo do passado para perto da gente e também de manter nossos costumes, nossa história, nosso modo de vida para continuarmos sendo índios. Antigamente nossos antepassados viviam assim, da forma como vivemos durante o festival, e hoje não podemos mais ter este ritmo, por isso escolhemos uma semana no ano para termos esta continuidade, vivermos como nos tempos passados".

Conta o pajé Yawá - do alto de seus quase cem anos de vida - que na criação de todos os povos, o criador, Nuke Sheni, "aquele que não tem nome, porque ninguém nasceu antes dele", deu um dom específico a cada povo. Aos Yawanawá coube o dom do canto, o dom de cantar tão bem que não seriam precisos instrumentos musicais. Durante o festival, a aldeia, em festa, mostra ao mundo que o dom recebido do criador é usado com sabedoria pelo povo indígena. O rapé e o Uni, rituais espirituais, também acontecem com frequência durante a festividade.

 

Turistas recomendam o passeio

 

A curiosidade de conhecer uma aldeia e participar de alguns rituais indígenas levou o casal Jaqueline Gil e Luiz Dória ao festival de 2008. Na bagagem de volta eles trouxeram impressões únicas e a vontade de retornar à terra indígena. "Mas é preciso se adaptar para estar em contato com a floresta, tomar banho de igarapé, comer a comida típica dos índios e se entregar de fato ao ambiente", observou a turista.

Para Dória, a oportunidade de se aventurar no etnoturismo, surgida a partir da comercialização turística através de uma agência, não poderia ser desperdiçada. "Estamos no coração da Amazônia e esta não é uma viagem que está sempre disponível. O festival só acontece uma vez por ano. O que mais nos marca são as lembranças que ficam na memória: o trajeto no rio, a recepção dos índicos. São cenas muito marcantes. Recomendo para todos. Vale a pena abrir mão de conforto e luxo para vivenciar estes momentos".

 

Novidades prometem surpreender

 

Este ano, todas as aldeias que fazem parte do povo Yawa devem se reunir na Nova Esperança para participar do festival. Além das autoridades e dos turistas que participam da festa, representantes de 14 países - unidos pelos laços do Uni, a bebida feita a partir da ayuasca - têm encontro marcado na TI.

A cerimônia da Sauna Sagrada - Te Mascal (Tenda do Suor), será realizada por índios americanos, convidados especialmente para a festa. O Te Mascal é uma das cerimônias mais antigas do mundo, feita na "Cabana das Anciãs Pedras", uma tenda redonda que lembra o ventre de uma mulher grávida - A Mãe Terra, onde se chega a tocar, através do calor, da escuridão e de cânticos sagrados, o mistério da criação da vida. Na tenda, são colocadas pedra quentes, ervas medicinais e água. Com o calor, são liberadas as toxinas do corpo num ritual de purificação corporal e espiritual.

 

Economia inteligente

 

O povo Yawanawá dá uma grande lição de sustentabilidade quando o assunto é economia. Eles alcançaram o desenvolvimento econômico inteligente e com respeito à natureza, vivendo da floresta sem agredi-la. Dos mais de 200 mil hectares que fazem parte do Território Indígena do Rio Gregório, menos de 20 mil sofreram a ação do homem e esta área é utilizada pelas aldeias para habitação e plantios.

Todas as árvores derrubadas para a abertura de roçados ou mesmo as que caíram de forma natural na floresta ou rios está ganhando vida em bancos, objetos de decoração e outras peças de mobiliário através de um projeto de reaproveitamento de madeira morta. Os recursos - a fundo perdido - para a aquisição das máquinas para marcenaria, um caminhão e um barco para o transporte dos produtos foram destinados pelo gabinete do senador Tião Viana (PT-AC), através de uma articulação com a Fundação Banco do Brasil.

O povo Yawa tem mais de 15 mil pés de andiroba plantados, com uma alta capacidade de produção de óleo para exportação. No ano passado, foram plantados arroz (colheita estimada em 8 toneladas), cana de açúcar (uma média de 6 a 7 toneladas) e macaxeira, num plantio calculado para render mais de 80 toneladas da raiz.

A macaxeira também vira farinha e a comunidade ganhou - dentro do projeto 102 Casas de Farinha do senador Tião Viana - duas unidades padrão de produção. A caça, a pesca e a agricultura de subsistência ainda são fortes na aldeia.

O etnoturismo, apesar de ainda insipiente e limitado, também é uma das fontes de renda da aldeia e a cada ano sua exploração ganha mais força.

"Hoje não temos mais como viver sem o contato com o homem branco e alguns coisas que eles fizeram foram boas e merecem ser aproveitadas. Antes gastávamos dias para chegar à cidade, hoje o percurso é feito em algumas horas. Não usamos mais machadinhas de pedra. Precisamos de gasolina, paletas, motores, roupas. Quando alguém fica doente precisa de apoio na cidade para fazer um tratamento. É pra isso que nosso povo usa o dinheiro que ganha", explica o cacique Biraci.

Não é mais possível viver de forma isolada na aldeia, ignorando o contato com o branco. Mas o povo Yawanawá já provou ao mundo que sabe viver de forma harmoniosa com o mundo exterior, preservando sua cultura original e impondo limites. Mesmo assim, o cacique pondera que ainda há muito a ser feito para resgatar as tradições que foram perdidas durante o tempo de dominação e escravidão a que foram submetidos.

"Ainda precisamos fortalecer mais a nossa cultura. Temos que voltar ao nosso ponto de equilíbrio. A nossa geração jovem continua nascendo falando português, sonhando em português, temos que continuar falando português, mas sonhando yawanawá, e num anoitecer, quando formos dormir, sonhar na nossa língua. Isso acontece quando estamos com o nosso espírito verdadeiro. Sabendo falar português e usufruir tudo o que o contato nos oferece, mantendo os profundos conhecimentos da nossa tradição, temos facilidade em escolher o que queremos e o que não queremos", explica o cacique.

 

 

(*) Tatiana Campos é da Agência de Notícias do Acre e ganhadora do Prêmio José Chalub Leite de Jornalismo Digital em 2008 com matéria sobre o Festival Yawá daquele ano.




    


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