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Brasília/DF, 06 de setembro de 2010 
 
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A grande importância do arranjo produtivo de Xapuri

A grande importância do arranjo produtivo de Xapuri

ÉCIO RODRIGUES (*)

      No final da década de 1980, um contingente de produtores rurais, os chamados seringueiros, resolveram dizer ao país e ao mundo que teimavam em continuar vivendo sob o ecossistema florestal da Amazônia fazendo o inusitado: produzindo borracha.

     Em Xapuri, uma cidade considerada ícone do movimento dos extrativistas, esses produtores conseguiram garantir a posse de extensa área territorial, com os decretos de criação das reservas extrativistas, um tipo especial de unidade de conservação de uso sustentável.   

     Essa conquista territorial foi importantíssima para fornecer maior estabilidade ao extrativismo. Para se ter uma idéia, a migração interna, de uma colocação para outra no interior dos seringais, era apontada como um dos principais entraves ao estabelecimento de programas de desenvolvimento comunitário junto a essa população, conforme diagnosticado nos relatórios sócio-econômicos realizados pela Funtac desde o final da década de 1980.

     Uma das motivações principais, para essa mobilidade prejudicial ao planejamento de investimentos, era a generalizada insegurança fundiária. Os extrativistas viviam, em sua maioria, ameaçados pelo retorno do patrão seringalista, que não iria reconhecer nenhum tipo de investimento realizado por ele na colocação.

     Mas, a manutenção do extrativismo nos moldes e nível tecnológico do início do século XIX não forneceria às novas reservas extrativistas a sustentabilidade econômica e ambiental que requeria. Era preciso elevar esse padrão tecnológico de maneira a atrair novos apoios e investimentos. A década de 1990 foi um grande laboratório nesse sentido.

     Xapuri atraiu investimentos de toda ordem. A cooperação internacional e solidária, sobretudo aquela vinculada às igrejas, foi imprescindível. Mas também houve recursos oriundos de países europeus, como a Áustria por exemplo, e de um variado leque de organizações não governamentais internacionais e nacionais. Ou seja, o município transformou-se, de certo modo, em um centro atrativo de suporte técnico e financeiro no intuito de se estabelecer novas formas de se produzir, nas quais a manutenção do ecossistema florestal era a maior referência.

     Recursos públicos nacionais, em especial oriundos do Ministério do Meio Ambiente, também tiveram participação crucial. Os projetos apoiados através do Programa de Meio Ambiente e Apoio às Comunidades Indígenas (PMACI), encerrado por volta de 1996, se destacam em quantidade de experiências produtivas conduzidas e em valores aplicados. Possivelmente, nenhum outro programa chegou próximo à dimensão orçamentária do PMACI.

     Com contornos semelhantes ao do PMACI, porém com limitações de recursos, o Programa de Agroextrativismo da Secretaria de Coordenação da Amazônia tentou, com algum sucesso inicial, renovar o processo de apoio às experiências de Xapuri com recursos públicos nacionais.

     Mas foi com a aprovação do Programa Piloto (PPG7) que um novo conjunto de investimentos se realizou no período pós PMACI. Através do PD/A, um dos subprogramas do PPG7, mais experiências produtivas foram tentadas. Além disso, cabe destaque, também, à presença do Fundo Nacional do Meio Ambiente (FNMA) que desde o início da década de 1990, de forma irregular e não planejada, esteve presente.    

     Uma depuração nas diversas alternativas produtivas foi inevitável e chegou-se no limiar do ano 2.000 com uma certeza. O uso múltiplo do ecossistema florestal por meio da tecnologia do Manejo Florestal de Uso Múltiplo, recém elaborada, seria o caminho adequado para consolidação de uma ocupação produtiva ancorada nos ideais de sustentabilidade, igualmente recém concebidos.

     Desta feita, com a participação do CTA (Centro de Trabalhadores da Amazônia) na elaboração do Plano de Manejo de Uso Múltiplo e com recursos consideráveis da Suframa, foi possível preparar uma primeira área para produção comunitária de madeira no Seringal Cachoeira, projeto comunitário já certificado com o selo verde do FSC. Além disso, a Suframa também investiu na continuidade da cadeia produtiva, ofertando recursos para instalar o Pólo Florestal de Xapuri.

     Com uma moderna usina de castanha já em operação, uma fábrica de preservativos e uma grande indústria de beneficiamento de madeira em construção, e mais, uma escola incubadora de marcenarias, estufa de secagem e algumas micro-empresas moveleiras, o município passa por uma transformação produtiva, pioneira e decisiva aos destinos da Amazônia, em direção ao estabelecimento de um "Cluster Florestal".

     Será, provavelmente, o primeiro arranjo produtivo genuinamente e totalmente oriundo no ecossistema florestal a ser instalado na Amazônia. Esse Cluster Florestal vai precisar da atenção e do esforço de todos, sem exceção, principalmente dos agentes públicos e privados envolvidos com os setores produtivos no Acre. Estabelecer as redes de conexão entre as várias opções produtivas e conectá-las a uma marca municipal de sustentabilidade, que poderá atingir um ecomercado ávido por esse tipo de produto.   

     Nem os mais pessimistas e incrédulos quanto à sustentabilidade da produção de madeira poderão negar que, definitivamente, a agropecuária deixará de ter significado econômico para Xapuri e que, conseqüentemente, o ecossistema florestal ganhará status de referência para uma economia florestal que, sem a menor dúvida, possui muito maior adequação aos ideais de sustentabilidade preconizados para a Amazônia. 

(*) Engenheiro Florestal, Mestre em Economia e Política Florestal pela UFPR e Doutor em Desenvolvimento Sustentável pela UnB.  



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